
Sempre que chega o mês de fevereiro, a mesma resenha toma conta das rodas de conversa em Salvador: afinal, quem foi o pai ou a mãe do circuito Dodô (Barra-Ondina)? Por muito tempo, a narrativa popular cravou que a folia de frente para o mar teria nascido em 1996, com a descida triunfal de Daniela Mercury no Bloco Crocodilo. Mas a história real, baseada em documentos e registros de época, mostra que essa semente foi plantada bem antes!
É inegável que a Rainha do Axé trouxe uma estrutura gigantesca e mudou o eixo do Carnaval nos anos 90, consolidando o termo "blocos alternativos". Mas, se formos buscar a verdadeira origem da festa na orla, a viagem no tempo nos leva direto para a década de 1980.
Tudo começou a ganhar forma em 1986, quando o eterno Moraes Moreira teve uma ideia barril: ele resolveu descer com o seu trio elétrico do tradicional circuito do Campo Grande (Osmar) direto para a Barra. Ele estacionou por lá e ficou tocando até de madrugada. Foi a fagulha no barril de pólvora! O povo, que foi pego de surpresa, já sentiu que aquele era um caminho sem volta. Afinal, curtir o trio molhando o corpo com a maresia e uma cerveja gelada era a combinação perfeita.
Se Moraes Moreira deu o start, o primeiro desfile de bloco estruturado no trecho tem nome e ano cravados: foi o Baby Léguas, puxado pelo pai da axé music, Luiz Caldas, no Carnaval de 1987.
Quem garante isso, com documentos na mão, é o empresário e editor da Revista Exclusiva, Clóvis Dragone. "O Baby Léguas inaugurou o desfile de bloco estruturado no trecho Barra-Ondina em 1987. Isso não é opinião, é documento. Está registrado", crava. A partir daí, rolou um efeito dominó e, já no ano seguinte, a Barra foi perdendo aquela carinha de "carnaval de bairro" para virar de vez um circuito alternativo.
E onde a nossa Rainha entra nisso tudo? A descida do Crocodilo em 1996 tem, sim, um peso histórico gigantesco pela superestrutura, pela projeção nacional e por ter carimbado o Barra-Ondina como o metro quadrado mais disputado da festa.
Mas a própria Daniela já sentia o clima da orla muito antes: a primeira aparição dela puxando bloco na Barra foi em 1990. Pouco tempo depois, em 1992 e 1993, ela também liderou o bloco "As Acadêmicas" por lá.
Resumindo: o Carnaval da Barra é uma construção de várias mãos e talentos. Mas, quando for contar a história na roda de amigos, não esqueça de dar os devidos créditos aos gigantes Moraes Moreira e Luiz Caldas, que desbravaram o asfalto perto do mar lá nos anos 80!