
Quem passa pela Avenida da França, na região portuária de Salvador, dificilmente ignora a presença maciça de um prédio que destoa da arquitetura colonial clássica da cidade. O Instituto do Cacau da Bahia (ICB), inaugurado em 1936, foi erguido para ser o símbolo máximo da pujança da lavoura cacaueira, que na época sustentava boa parte da economia do estado. Quase 90 anos depois, o "palácio do ouro negro" enfrenta seu momento mais crítico, marcado por incêndios, disputas burocráticas e o fechamento de seu museu.
O edifício é uma joia arquitetônica rara em solo soteropolitano. Projetado pelo arquiteto alemão Alexander Buddeus, o prédio é o único exemplar remanescente do estilo Bauhaus (com influências de Art Déco) em Salvador. Sua construção na década de 1930 não foi apenas estética, mas um manifesto de modernidade: com linhas retas, funcionais e mais de 16 mil metros quadrados, ele representava o avanço tecnológico que se desejava para a cultura do cacau.
Em seu interior, o luxo e a cultura se encontravam. O prédio foi decorado com referências à cultura marajoara e abrigava um auditório com cadeiras de madeira de lei impecáveis, além de mármores e acabamentos que denotavam o poderio dos "coronéis do cacau".
Dentro deste gigante de concreto, reside o Museu do Cacau, fundado em 1983 para preservar a memória da agricultura cacaueira. Seu acervo é valioso: guarda desde urnas funerárias indígenas e peças de arte sacra até mobiliário colonial, fotografias históricas e equipamentos usados no beneficiamento do fruto.
No entanto, o museu tornou-se um "fantasma". Fechado para visitação regular há mais de uma década, o espaço parou no tempo. Relatos e imagens recentes mostram um cenário desolador:
Peças históricas cobertas por poeira;
Folhas artificiais de cacau envelhecidas e quebradiças;
Livros raros da biblioteca trancados e sem acesso ao público;
Estruturas danificadas por cupins e infiltrações.
Embora o acervo sobreviva, ele não cumpre sua função social. O que deveria ser um centro de pesquisa e turismo, narrando a saga do cacau na Bahia, hoje é um depósito inacessível.
O declínio do edifício acelerou-se drasticamente na última década. Em julho de 2012, um grande incêndio atingiu o terceiro andar e a cobertura do prédio, comprometendo a estrutura e destruindo parte do telhado. Um ano antes, em 2011, um princípio de incêndio já havia servido de alerta, infelizmente ignorado.
Mais de dez anos após o fogo, as cicatrizes permanecem abertas:
O último andar, área mais afetada, continua escorado com estruturas metálicas provisórias;
Vidraças da fachada estão quebradas, permitindo a entrada de chuva e animais;
A fachada, tombada pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), sofre com pichações e o crescimento de vegetação nas fendas.
Apesar de abrigar alguns serviços públicos no térreo, como uma unidade do SAC e um Restaurante Popular, a maior parte do edifício permanece subutilizada ou interditada.
A recuperação do Instituto do Cacau esbarra em um imbróglio administrativo. Oficialmente, o imóvel pertence à Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), sediada em Ilhéus, a centenas de quilômetros da capital. A gestão e manutenção, contudo, envolvem também o Governo do Estado e as secretarias que ocupam o espaço.
Essa responsabilidade compartilhada gerou um vácuo de ações efetivas. Projetos de revitalização foram anunciados diversas vezes — prometendo desde a reforma do telhado até a transformação do espaço em um centro de convenções ou de eventos "de charme" — mas a execução prática nunca chegou a restaurar a glória do edifício.
Enquanto o poder público discute orçamentos e responsabilidades, o Instituto do Cacau segue degradando-se diante da Baía de Todos-os-Santos. Historiadores e arquitetos alertam que, sem uma intervenção urgente, Salvador corre o risco de perder não apenas um exemplo único de sua arquitetura moderna, mas também a memória material de um dos ciclos econômicos mais importantes do Brasil.
O prédio que um dia projetou o futuro da Bahia para o mundo, hoje, aguarda melancolicamente que o presente lhe devolva a dignidade.