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Salvador, BA

Cultura Bienal do Livro:

Alice Caymmi, Paloma Amado, Pedro Rhuas, Socorro Acioli e a atração internacional Abdi Nazemian movimentaram o 5º dia de Bienal do Livro Bahia

"O livro tem o potencial de fazer as pessoas viajarem, sonharem, elaborarem. Avançamos bastante, mas a participação do brasileiro e da brasileira, e dos baianos, no que diz respeito à quantidade de livros lidos durante o ano, ainda é relativamente baixa.

02/05/2024 às 00h30 Atualizada em 02/05/2024 às 00h54
Por: Miquel Souzza Fonte: Assessoria de Comunicação.
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Reprodução / Imprensa. - Filmart Media
Reprodução / Imprensa. - Filmart Media

O quinto dia de Bienal do Livro Bahia foi marcado pelas presenças de Paloma Amado, Alice Caymmi, Pedro Rhuas, Abdi Nazemian, Stefano Volp, Socorro Acioli e de autoridades como o governador do estado, Jerônimo Rodrigues, o secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro, e a secretária estadual de Educação, Rowena Brito. Milhares de crianças e jovens de escolas públicas e particulares também estiveram presentes e lotaram os corredores do evento nesta terça-feira (30).

Ônibus e vans de turismo ocuparam o estacionamento do Centro de Convenções Salvador trazendo estudantes de cidades como Candeias, Cipó, Retirolândia e outras. O Governo da Bahia distribuiu 10 mil vales-livro para alunos e professores da educação básica, para serem usados na bienal. O governador recebeu o alunado baiano e recomendou a leitura das duas obras de Itamar Vieira Júnior, 'Torto Arado' e 'Salvar o fogo'.

"O livro tem o potencial de fazer as pessoas viajarem, sonharem, elaborarem. Avançamos bastante, mas a participação do brasileiro e da brasileira, e dos baianos, no que diz respeito à quantidade de livros lidos durante o ano, ainda é relativamente baixa. Nós temos que sair da casa de quatro livros no ano para chegar em, pelo menos, um livro por mês. A gente quer que as pessoas tenham interesse pela leitura porque quando incentivamos isso, a gente estimula também a escrita", disse Rodrigues.

Nas mesas de encerramento do penúltimo dia do evento, foram discutidos temas como fé e religiosidade na literatura, histórias de amor protagonizadas por minorias políticas e ainda as interações afetivas e artísticas entre as famílias Caymmi e Amado. No painel 'Divinos e maravilhosos', na Arena Jovem, que é um dos espaços da bienal, os escritores Socorro Acioli e Ian Fraser conversaram sobre as tecnologias da fé para pensar o Nordeste.

Autora do best-seller 'A cabeça do santo', Socorro contou de onde veio a inspiração para a história. Segundo ela, tudo surgiu a partir de uma matéria de jornal onde uma senhora muito irritada reclamava que até um vagabundo estava morando no interior da estátua da cabeça de um santo. "Ela me deu um personagem e eu desenvolvi a história. Hoje, sempre que as pessoas veem algo absurdo misturado com religião, elas me mandam e tenho um catálogo de histórias reais que, se alguém inventasse, diriam que estava exagerando", riu.

Alfabetizado primeiro em inglês, o baiano Ian Fraser, por sua vez, contou que foi criado com fortes referências da cultura norte-americana e detalhou a sua trajetória até sentir que precisava escrever sobre a cultura soteropolitana. "O imaginário popular está dominado pela pele branca e pelo capitalismo estadunidense. Para mim, a grande graça é escrever sobre o lado de cá. Recuperar minha identidade soteropolitana foi a minha meta", contou.

 

Caymmi e Amado:

Aniversariante do dia, Dorival Caymmi estaria completando 110 anos nesta terça, 30 de abril, e para celebrar a data, Alice Caymmi, cantora e neta dele, e a escritora Paloma Amado trouxeram histórias das interações entre a família do compositor e a do romancista Jorge Amado. Paloma recordou episódios espirituosos de Stella Maris, esposa de Caymmi: em um deles, ela quebrou um telefone na cabeça do cantor depois de flagrar um caso extraconjugal, e em outro, fez xixi no colo de uma mulher que teria zombado dela.

"As histórias da Bahia envolvem muita magia. Meu pai foi um ateu comunista e ele mesmo dizia que era um ateu que vê milagres. Muitas vezes, vi milagres junto com ele e ele dizia: 'Filha, milagres a gente vê e não explica, a gente guarda para si e pronto'", declarou ela no Café Literário, outro espaço da Bienal.

Alice contou que para formar sua própria identidade contou com o incentivo do avô. "Ele sacou que eu era artista. Ele falava para meu pai: 'Cuida bem dela porque ela tem estrela'. Eu passei no vestibular de Direito, um curso dificílimo… Quando fui trancar o curso, a mulher disse: 'A gente já estava te esperando mesmo, não tem jeito, você é artista", disse.

 

Por novas histórias de amor:

Já na última mesa do dia, na Arena Jovem, com o tema 'Por novas histórias de amor', os escritores Pedro Rhuas, Abdi Nazemian e Vanessa Reis falaram sobre como as narrativas LGBTQIAPN+ e de pessoas com deficiência ainda são recentes e raras. Emocionado, Rhuas lembrou que muitas histórias reais não podem ser contadas e nem vividas devido à violência, aproveitando para citar dados de pessoas queer assassinadas em 2023 no Brasil.

"O amor, para nós, é algo que passa por vários percalços, porque as mensagens que nos dizem é de que nós não merecemos ser amados, de que um garoto amar outro garoto é pecado. Seguiremos construindo histórias de amor para que o Brasil não seja o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo", disse.

Escritora PCD, a baiana Vanessa Reis defendeu que os leitores devem olhar essas histórias de amor para outros corpos não só pelo prisma da representatividade, mas porque muitas delas são, de fato, boas histórias que podem ser lidas por qualquer pessoa.

 "O amor é, principalmente, o que nos adia o adoecimento. Sem amor, a gente adoece. E é importante falar de amor para outros corpos porque olham para PCDs como se não fossem passíveis de amor. Nos reduzem à deficiência, mas somos pessoas como todas as outras, passíveis ao amor e amar", lembrou.

Autor de cinco romances, o iraniano-americano Abdi Nazemian comentou como movimentos políticos conservadores têm dificultado avanços ainda mais promissores para a comunidade queer.

"Meus livros estão banidos agora em alguns estados dos EUA porque não querem que se fale de comunidade queer. Uma coisa que é importante para mim é que a gente não pode deixar que nos ataquem ao ponto de nos fazerem perder o nosso senso de comunidade. Então, acho que a nossa comunidade está na posição de poder ensinar alguma coisa, como poder viver em harmonia", analisou.

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